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Buenos Aires Argentina
Quatro da tarde de um domingo de sol. Uma multidão de
turistas se apinha para ver a apresentação de tango no meio da rua.
Entre as casinhas coloridas de El Caminito, provavelmente o quarteirão
mais turístico de Buenos Aires, visitantes alucinados parecem mais
estressados que felizes. Algumas pessoas pedem esmola, outras dormem na
rua. De repente, um grito de gol ecoa da arquibancada lotada de La
Bombonera, o mítico estádio de futebol do Boca Juniors, a dois
quarteirões dali.
Não há como deixar de viver uma relação passional
com essa cidade de fama arrogante, sim, mas extremamente sedutora. Ela vai
quebrar sua resistência num golpe só. É assim, de forma avassaladora,
que o turista vai deixar a capital argentina entrar em sua vida.
Caminhando por muitas e muitas de suas ruas, vai querer saber mais.
Entender por que os argentinos são tão orgulhosos de suas coisas. Vai se
empolgar até com o mais turístico dos programas portenhos, os shows de
tango. Vai vasculhar sua alma, trocar experiências. Comparar cada
cantinho com o Brasil.
Vai visitar o túmulo de Evita Perón no Cemitério da
Recoleta, para depois tomar uma Quilmes num barzinho de San Telmo. Vai
provar um bife de chorizo e se aventurar pelas lojinhas descoladas de
Palermo. Vai se cansar de acompanhar a troca de guarda na Casa Rosada e
fará uma parada providencial no Café Tortoni, o mais antigo dessa cidade
de 12 milhões de habitantes e nome original tão pomposo - Ciudad de la
Santíssima Trinidad y Puerto de Nuestra Señora la Virgen María de los
Buenos Aires.
Fará confidências depois da meia-noite numa Calle
Florida quase vazia e vai acabar discutindo com algum taxista para depois
perceber que isso faz parte do folclore portenho. Vai voltar com saudades.
Até mesmo das coisas que não conheceu.
PUERTO MADERO: Os esforços de restauração empregados
na região portuária produziram um dos exemplos mais bem-sucedidos em
termos de revitalização urbana nos últimos tempos. Em uma década, a
decadente área de Puerto Madero, esquecida durante 80 anos e que se
resumia a barracões abandonados, passou a ser uma das principais
atrações turísticas de Buenos Aires.
Comece o passeio pelo dique 3, o mais agitado e com a
maior concentração de bares e restaurantes. Se puder, caminhe às
margens do rio da Prata num domingo de manhã, quando os moradores
aproveitam suas passarelas para fazer cooper. Outros preferem sentar numa
das mesinhas na calçada e apenas espiar o desfile de gente bonita.
São 3 quilômetros de calçadão, tranqüilamente
percorridos em uma hora e meia de caminhada. No trajeto, certamente serão
ouvidas algumas palavras em português - os turistas brasileiros
simplesmente adoram Puerto Madero, principalmente os restaurantes.
Do outro lado do rio da Prata, faceta menos agitada de
Puerto Madero, uma construção histórica de mais de um século domina a
paisagem. Conhecido como Edifício Portenho, o prédio de 15.500 metros
quadrados foi construído com blocos transportados de Manchester, na
Inglaterra. Hoje, dá lugar ao Faena Hotel + Universe, com revitalização
que aposta no luxo e na exclusividade.
El Caminito e Recoleta, ainda imperdíveis. Está
certo. O bairro é figurinha carimbada no álbum de viagens de qualquer
turista que se preze. Suas ruas aparecem em toda campanha publicitária da
Argentina. Mas como resistir aos encantos de La Boca e seu El Caminito
colorido? Então, tome um táxi - o bairro fica um tanto distante do
centro e costuma ser um pouquinho perigoso - e não perca tempo.
Desfile por El Caminito, rua de apenas um quarteirão,
apreciando cada detalhe de suas casas de folha de flandres ou de zinco
multicoloridas. A idéia de revitalizar a área, antiga passagem de trens
que andava meio caída, foi do pintor Benito Quintela Martín. A
determinação rendeu. Se ele batizou o lugar em homenagem ao tango
"El Caminito", hoje em dia a coisa se inverteu: turistas entoam
a música em homenagem àquela rua.
As casinhas abrigam ateliês, bares e lojas, muitas
lojas. As pinturas em algumas portas e os bonecos de cera em certas
sacadas - de heróis nacionais, como Evita Perón, Maradona e Carlos
Gardel - são um charme.
Situado na margem esquerda do rio Riachuelo, o bairro
de La Boca tem um atrativo adicional: é o lar do Boca Juniors. Por isso,
não deixe de passar pela Bombonera, o famoso estádio do clube. As
arquibancadas, quase dentro do campo, intimidam os adversários. E a festa
da torcida emociona qualquer um. Eles cantam, vibram, choram. Não adianta
torcer o nariz. Os argentinos são tão fanáticos quanto os brasileiros
quando o assunto é futebol.
Do outro lado da cidade, o bairro da Recoleta é
totalmente diferente de La Boca. Algo como sal e açúcar. Enquanto La
Boca mantém seu charme latino, a Recoleta quer ser um pedacinho da Europa
na América do Sul. Ótima chance de confrontar os dois estilos, sem
necessariamente tomar partido.
Por suas ruas tranqüilas e arborizadas, salpicadas de
mansões de influência francesa e prédios luxuosos, circula um pessoal
muito chique e bem vestido, que costuma fazer hora em lugares como La
Biela, um dos mais charmosos cafés da cidade, freqüentado pela
intelectualidade local. Turistas costumam fazer romaria até o Cemitério
da Recoleta onde, entre figuras ilustres, bravos generais de guerra e
artistas, está o corpo de Evita Perón (1919-1952). E as vielas ficam
lotadas de gente atrás do tal jazigo.
Feira de San Telmo, a mais famosa da cidade. De um
lado, um músico, solitário, toca melodias num acordeom. Noutro, um homem
manipula alegremente seus fantoches. A poucos passos dali, um casal se
anima com os passos furiosos do tango, enquanto um cantor solta a voz,
acreditando ser o herdeiro de Carlos Gardel. No meio disso tudo, barracas
e mais barracas. De artesanato, antigüidade, brechós e até de comida.
Essa confusão alegre é a feira de San Telmo, a mais famosa de Buenos
Aires.
Mesmo que você já conheça esse evento dominical da
capital argentina, vale a pena rever. Ele sempre muda, acrescenta algo,
suprime outro, reinventa moda. Originalmente, a feirinha restringia-se à
praça Dorrego. Hoje em dia, porém, a exposição toma várias quadras,
das 10 à 18 horas. Programão de um dia inteiro. Se for sua intenção,
ali provavelmente o visitante encontrará os melhores preços entre todas
as feiras dominicais de Buenos Aires - as outras duas são a de La Boca,
bem menor, e da Recoleta. Só para se ter uma idéia, um xale de lã feito
a mão custa em torno de 15 pesos (US$ 5). Peça parecida em La Boca sai
por uns 35 pesos (cerca de US$ 12).
Repare, enquanto percorre a feira, nos inúmeros cafés
e antiquários das redondezas. E, se tiver um tempinho, sente-se numa
cafeteria para apreciar o vaivém de gente. Um dos pontos mais famosos é
o Bar Dorrego. É o lugar de quem quer ver, ser visto e para deixar o
tempo passar.
Na hora do almoço, pausa mais do que obrigatória no
La Brigada, restaurante freqüentado por gente como Maradona (nos bons
tempos) e jogadores do Boca Juniors. O ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso também costuma passar por lá quando está em Buenos Aires para
experimentar os deliciosos cortes argentinos.
Logo na frente do La Brigada está outra parada
obrigatória, o Mercado de San Telmo, um dos únicos da cidade que ainda
vende legumes, frutas e verduras.
Percorrida a feirinha de San Telmo, caminhe algumas
quadras para conhecer um dos monumentos ao tango: El Viejo Almacén,
lendária casa, provavelmente a mais famosa do país. Aberta em 1968, num
prédio de 150 anos, desperta paixões e arrasta fãs da expressão
artística mais popular da Argentina.
Palermo, surpresa para quem já conhece tudo. Um bairro
descolado, longe do circuitão turístico e dos ônibus de city tour,
começa a despontar em Buenos Aires. Uma surpresa para quem já conhece
tudo. Uma ótima dica para quem está indo pela primeira vez. Espécie de
Vila Madalena do Prata (bairro de São Paulo), Palermo atrai gente bonita
e criativa, em sessões de compras durante o dia e numa balada a altas
horas da noite.
Alguns quarteirões já foram tomados por lojas de
roupa, design, bares e restaurantes. Vale passar uma tarde por lá,
caminhando por suas ruas arborizadas e extremamente tranqüilas. E não se
assuste se, munido de mapa, guias de viagem e garrafinha d'água, olharem
para você com espanto: os moradores e freqüentadores de Palermo não
estão muito acostumados aos visitantes. Eles ainda vivem no sossego
total.
Oficialmente, Palermo se divide em quatro facetas:
Palermo Chico, Soho, Viejo e Hollywood, mas é praticamente impossível
diferenciá-las. Até os donos das lojas fazem confusão. Num mesmo
cartão de visitas pode estar escrito Palermo Soho e Palermo Hollywood.
Não é um problema, relaxe.
Quadrilatero: Para conhecer algumas das lojas mais
bacanas de lá, é legal começar pelo quadrilátero formado pelas ruas
Malabia, Honduras, Jorge Luis Borges e Nicarágua e suas transversais,
que, no mapa, estão em Palermo Soho. São poucos quarteirões, que
concentram as criações de jovens estilistas e restaurantes modernosos.
A rua Honduras é uma festa. Numa mesma quadra é
possível encontrar de objetos de design exclusivo a roupas indianas
chiquérrimas. Dê uma olhada na Okko, que vende roupas e objetos de
inspiração oriental. Os preços são salgados.
Logo ao lado, está a Calma Chicha, de objetos de
decoração. Também não tem preços convidativos, mas é um playground
para quem gosta de peças exclusivas. No mesmo quarteirão, as roupas da
Mariana Dappiano têm uma cara paulistana e preços idem.
No fim deste quarteirão está a pequenina praça
Cortázar, circundada por bares de estilos variados. Uma boa pedida para
tomar fôlego para as próximas quadras.
Depois de rodar pelo bairro, pare no Restaurante
Meridiano 58. Um charme só. Com sofazinhos na calçada, é perfeito para
sentar, tomar um suco de laranja e ler um livro sob uma árvore. Se
preferir almoçar, pare no Cabernet.
Eles fogem da tradicional parrilla argentina e servem
massas, como o nhoque à Alfredo. Prove também os profiteroles com
sorvete.
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